Passando de geração

Em 2008 promovi uma Blogagem Coletiva com o nome Importando Folclore. Nesta blogagem, que aconteceu no dia 31 de Outubro daquele ano, ao invés de postarmos textos sobre o dia das bruxas, falaríamos sobre histórias do nosso Brasil, nosso folclore. Na época, minha indignação era saber que moramos em um país tão grande, tão cheio de histórias e coisas bonitas, assustadores, arrepiantes, legais entre outros, e ainda perdemos tempo nos apropriando da cultura dos outros, não que isso seja de todo ruim. Mas vamos nos conhecer primeiro, vamos difundir e promover a nossa cultura, e não “importar” a cultura dos outros.

Antes de iniciar, uma curiosidade: eu não tenho nada contra as bruxas, até me simpatizo com algumas. As boas, é claro. Em minhas pesquisas e leituras sobre o tema, descobrir que o dia das bruxas no Brasil deveria ser comemorado por volta de 21 de maio no solstício de outono.

Segue abaixo o texto postado no dia da blogagem. Isso já faz 6 anos.

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Passando de geração


-Quando eu era pequena, mais ou menos uns 10 anos, seu avô se preparou para caçar, ele combinou com o vizinho da chácara ao lado que estaria às 20h na “espera” onde estava tudo preparado (espera: local, como o próprio nome diz, para esperar o animal, muitas vezes em cima das árvores, e no chão é colocado “iscas” para que o animal esperado caia na armadilha), cada um na sua, e o sinal para saber se o outro estava no local combinado era uma assovio característico com uma resposta posterior.

-Seu avô saiu de casa com a espingarda nas costas, chegando ao local colocou as iscas no chão perto da árvore e subiu para esperar. No horário combinado ouviu o sinal do companheiro, respondeu e foi respondido, e ficou por ali, despreocupado, atencioso e em silêncio para não assustar os animais da mata. De repente observou que um veado se aproximou, mas não da sua espera e sim da espera do outro, e comeu da isca deixada, percebeu que o amigo não fez nada, e ele também não podia fazer, a distância não deixaria que o tiro fosse preciso. O veado foi embora e logo chegou outro, impaciente assoviou novamente e foi respondido, pensou: “O cara ta lá e não faz nada? Tem algo errado ai...”

Resolveu descer da árvore e ir ao encontro do amigo, quando pisou no chão a folhas secas se levantaram como em um redemoinho e o envolveram, sentiu um arrepio, mas até ai tudo bem, ventava fraco aquela noite, foi em direção ao amigo, e no percurso sentiu que alguma coisa estava se aproximando e começou a rodia-lo, tentou correr, mas resolveu parar e começou a gritar: “Você está me sacaneando? Para com isso. Já perdemos duas caças. Correu até a outra espera, chamou pelo amigo, subiu na árvore e nada de encontrar o amigo, desceu e quando chegou ao chão aquela sensação de que tinha algo ali aumentou e que estava mais perto, não teve dúvidas, saiu correndo de volta para casa, e sentia que quanto mais corria, mais perto a “coisa” chegava perto dele, atravessou um rio, no reflexo da água viu um vulto, parou, olhou para trás, mas não via nada, cansado, mas já perto da estrada fora da floresta falou ofegante: “Quem é você? O que quer de mim?” E mais uma vez não houve resposta, irritado ele gritou: “Volte para a floresta e me deixe em paz! – então ouviu um forte grito, um grito misturado com uivo, e de tão forte teve que tapar os ouvidos com as mãos. Ao seu lado havia um pé de Embu carregado e verde que começou a balançar violentamente, e sem mais nem menos, em um estalo, começou a pegar fogo, ele olhava para aquilo sem entender, a árvore caiu quebrando no chão e por pouco não caiu em cima dele.

-Nervoso, assustado e cansado gritou: “Pelo amor de Deus, volte para o seu lugar, me deixe em paz. Só quero voltar pra casa!

-Tudo silenciou.

-Ele chegou em casa, sentou em uma cadeira e ficou ali, acordado a noite inteira, de manhã cedinho saiu e foi na casa do amigo, e lá o encontrou, ele disse que teve um problema com a esposa, e por isso não pode sair para caçar com seu avô.

-Seu avô pediu pra ele o acompanhasse para ver tudo o que havia acontecido, e por incrível que pareça todas as coisas estavam no seu devido lugar, até mesmo o pé de Embu, carregado e verde.

-Ele pensou que estava louco, mas seu amigo o advertiu: “Não se deve brincar, nem desafiar o espírito da floresta.”

- Nossa mãe, o vô passou por tudo isso? E será que é verdade?

-Claro que é, eu vi como ele ficou. E essa é apenas uma história das muitas outras que acontecem no interior.

-E a senhora acredita?

-Sempre, nunca duvidei do seu avô.

-Se é assim, eu também acredito.

Baseado em fatos reais
Meu avô não era louco. Não não consumia bebida alcoólica, ou qualquer outro tipo de droga. E essa é uma pequena homenagem a ele, que faleceu no ano da blogagem.
Que Deus o tenha.
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Você sabia?


Pela Wikipédia:

Folclore é um gênero de cultura de origem popular, constituído pelos costumes, lendas, tradições e festas populares transmitidos por imitação e via oral de geração em geração. Todos os povos possuem suas tradições, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, contos, provérbios e canções.

O Dia das Bruxas (Halloween é o nome original na língua inglesa) é um evento tradicional e cultural, que ocorre nos países anglo-saxónicos, com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações pagãs dos antigos povos celtas.

Características do fato folclórico

Para se determinar se um acontecimento é folclórico, ele deve apresentar as seguintes características:

Tradicionalidade: vem se transmitindo geracionalmente.
Oralidade: é transmitido pela palavra falada.
Anonimato: não tem autoria.
Funcionalidade: existe uma razão para o fato acontecer.
Aceitação coletiva: há uma identificação de todos com o fato.
Vulgaridade: acontece nas classes populares e não há apropriação pelas elites.
Espontaneidade: não pode ser oficial nem institucionalizado.

As características de tradicionalidade, oralidade e anonimato podem não ser encontrados em todos os fatos folclóricos como no caso da literatura de cordel, no Brasil, onde o autor é identificado e a transmissão não é feita oralmente.

As manifestações folclóricas são: músicas, danças, usos e costumes, artesanato, crendices, superstições, festas, jogos, lendas, religiosidade, brincadeiras infantis, provérbios, mitos, adivinhações e outras atividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo.

Imagem: scx.hu

1 comentários:

  1. Andressa Corrêa03/11/2014 19:40

    Uauuu!! Meo Deuss!
    Acho que se eu estivesse no trem com vc, eu teria infartado e vc precisaria de mais seguranças e talvez um maca tb...kkkk!!

    Mas falando agora da vida...esses dias me peguei pensando em como a vida se tornou barata...ou será que só eu é que acho que ela devia ser mais cara?
    Tenho visto pessoas morrerem,nascerem ou simplesmente tornarem-se "ninguéns" e terem pouca ou nenhuma importância no mundo e para o mundo.
    Tenho conhecido casos e mais casos de pessoas que se entregaram a morte pq acham que a vida não vale mais a pena e de outras pessoas( na maioria dos casos, médicos) que entregaram seus pacientes a morte por conta de um descaso absurdo e de uma insensibilidade admirável...
    Sei lá...

    De qualquer forma se eu fosse vc faria uma manifestação no trem para que os seguranças sejam treinados com cursos de primeiros socorros e para que sejam mais rápidos em um caso desse...afinal, poderia ser eu neste trem,ou você...e eu ia ficar bem brava com essa demora pra me socorrer...tanto, que acho até que ia me curar sozinha..kkkk!!

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